Há uma ironia estrutural na história das ideias políticas: as correntes que mais falam em preservar a ordem frequentemente nascem de rupturas; as que proclamam liberdade frequentemente produzem desigualdades profundas; e as que prometem estabilidade florescem em tempos de transformação acelerada. Após essa onda de “família em conserva” que invadiu as redes sociais nas últimas semanas, fica o questionamento: essa é um trend inocente ou ideologia que causa dor?
A atual “onda conservadora”, visível em diversas democracias ocidentais, costuma se apresentar como reação ao excesso de mudança. A defesa da família tradicional, da religião como eixo moral e da autoridade como fundamento social aparece como resposta a um mundo percebido como instável. Mas a pergunta que raramente se faz é: quando, exatamente, o mundo foi estável?
Conservadorismo: uma tradição que nasceu reagindo
O conservadorismo moderno surge como reação à Revolução Francesa. Em autores como Edmund Burke, encontramos a defesa da tradição como mecanismo de prudência histórica. Burke temia que mudanças abruptas destruíssem instituições construídas ao longo de séculos. O verdadeiro conservadorismo de Burke entenderia que a família muda porque a sociedade muda (reforma gradual). Tentar “congelar” a família em um pote de vidro em uma trend, aparentemente, inocente, é o oposto da prudência histórica; é uma tentativa radical e artificial de parar o tempo.
A trend da “família em conserva” flerta com outro autor, Joseph de Maistre, esse sim, defensor do Absolutismo, que acreditava que a Revolução era um castigo divino pela arrogância humana. Ao usar “Deus e Família” como slogans para atacar direitos de outros, a trend atual se aproxima mais do reacionarismo autoritário. Ela não quer preservar uma tradição viva; ela quer impor uma autoridade estática que não admite o contraditório.
A própria modernidade que o conservadorismo tentou conter já era fruto de transformações irreversíveis: industrialização, urbanização, secularização. A história dos séculos XIX e XX mostra que nenhuma sociedade conseguiu preservar intacta sua estrutura social original. Impérios ruíram, sistemas econômicos foram reformulados, padrões familiares mudaram. A ideia de “congelar a cultura” sempre encontrou um obstáculo elementar: a própria dinâmica histórica.
A sedução dos slogans
“Família”, “Deus”, “ordem”, “liberdade”. São palavras poderosas. Funcionam porque operam no campo simbólico, não estatístico. Mas quando slogans substituem diagnósticos, o debate empobrece. A defesa da família, por exemplo, frequentemente ignora que o próprio conceito de família mudou ao longo dos séculos, desde a unidade produtiva rural extensa ao núcleo urbano reduzido do século XX. A invocação religiosa como fundamento moral também varia historicamente: diferentes épocas e culturas interpretaram a fé de maneiras profundamente distintas. E se você esqueceu que existem famílias diferentes, compostas por dois pais, duas mães, ou avós, você esqueceu o preceito mais importante de qualquer religião: o amor.
Falando em amor, eu consigo até entender o porquê deste movimento. Há um elemento humano legítimo na atração por discursos conservadores: a insegurança diante da transformação. Mudanças tecnológicas aceleradas, crises econômicas e redes sociais amplificam a sensação de perda de controle. Mas talvez o desafio contemporâneo não seja escolher entre conservar ou libertar, e sim aprender a administrar a mudança com responsabilidade institucional, evidência empírica e diálogo público qualificado.
Uma trend inocente ou um movimento que causa dor?
A mediocridade dessa tendência reside em uma exclusão silenciosa e cruel: para que algo caiba em um pote de conserva, ele precisa seguir um molde rígido e padronizado. Ao exaltar essa estética, ignora-se que a família é um organismo vivo e diverso, e não um produto industrial com receita única. Essa “trend” atinge diretamente a dignidade de famílias LGBTQIAPN+, lares chefiados por mães solo e arranjos multiparentais, sugerindo implicitamente que qualquer configuração que não siga o roteiro heteronormativo e biológico é uma “contaminação” ou algo “estragado” que não merece ser preservado. É uma celebração da homogeneidade que trata o afeto real como algo secundário à forma externa. É algo, inclusive, incoerente com todos os ensinamentos de amor defendidos, ao menos teoricamente, pelas instituições religiosas.
O que torna tudo mais grave é a profunda falta de noção de quem compartilha esses conteúdos. Muitas vezes movidas por um desejo ingênuo de pertencimento ou por uma nostalgia estética, essas pessoas não percebem que estão empunhando um símbolo de segregação. Elas não enxergam que o “vidro” que as protege é o mesmo que isola e discrimina quem vive fora dele. Ao postarem a imagem da perfeição estática, elas desvalidam a luta de quem conquistou o direito de existir e de amar fora dos padrões tradicionais, transformando preconceito estrutural em um “card” bonitinho de rede social. Não é uma trend inocente, mas uma ideologia que causa dor.
Essa busca por uma pureza artificial causa uma dor real e profunda. Para quem não se encaixa nesse modelo de prateleira, a mensagem é de que sua existência é um erro ou uma ameaça à ordem. É uma forma de violência simbólica que gera insegurança e sofrimento em quem já enfrenta batalhas diárias por aceitação. No fim, a obsessão pela “conserva” revela um egoísmo profundo: a disposição de sacrificar a humanidade e a diversidade do outro em troca de uma sensação ilusória de controle e superioridade moral, tudo devidamente filtrado para o consumo algorítmico.
R. J. Dabliu é economista, professor universitário, compositor e palestrante. É autor dos livros “Mill Sentidos da Vida”, “O conto da raposa vermelha” e apresentador na série de vídeos para o YouTube, “EU NÃO LI SHAKESPEARE”.
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