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O que 100 anos de história ensinam sobre investimentos de longo prazo

Fachada da Bolsa de Valores de Nova York, onde são negociados investimentos de longo prazo há mais de 100 anos.
Pesquisa analisou quase 30 mil ações americanas ao longo de um século e revelou que apenas 46 empresas geraram metade de toda a riqueza criada no longo prazo. (Foto: Arpan Parikh/Pexels)

Investimentos de longo prazo na bolsa de valores são frequentemente apresentados como o caminho mais seguro para construir patrimônio. No mundo, Warren Buffett construiu uma das maiores fortunas da história, cerca de US$ 140 bilhões investindo em ações. No Brasil, Luiz Barsi acumulou cerca de R$ 4 bilhões pelo mesmo caminho. Mas o que acontece quando um dos pesquisadores mais respeitados do mundo em finanças decide analisar todos os dados disponíveis — cem anos inteiros — e ver se essa promessa se sustenta? O resultado contradiz o que a maioria das pessoas acredita sobre a bolsa.

Fachada da Bolsa de Valores de Nova York, onde são negociados investimentos de longo prazo há mais de 100 anos.
Pesquisa analisou quase 30 mil ações americanas ao longo de um século e revelou que apenas 46 empresas geraram metade de toda a riqueza criada no longo prazo. (Foto: Arpan Parikh/Pexels)

O professor Hendrik Bessembinder, da Universidade Estadual do Arizona, publicou em março de 2026 um estudo que analisou 29.754 ações listadas na bolsa americana entre 1926 e 2025. Os números desmontam mitos amplamente disseminados por influenciadores e parte da indústria de investimentos.

O que os dados revelam sobre investimentos de longo prazo

O primeiro dado que chama atenção é que o retorno médio anual do portfólio com todas as ações ao longo dos 100 anos foi de 10,1%, substancialmente superior ao retorno dos títulos americanos de curto prazo, que foi de 3,3%. Em termos comparativos, um investimento de US$ 1,00 se transformou em US$ 15.041 na bolsa de valores e em apenas US$ 25,32 em títulos públicos. Parece ótimo — até você ver a outra face da moeda: a mediana de retornos foi de menos 6,9%. Isso significa que a maioria das ações, ao longo de toda a sua vida na bolsa, perdeu dinheiro, enquanto pouquíssimas empresas cresceram de forma extraordinária e influenciaram o resultado geral.

A média acaba sendo distorcida por esse grupo pequeno de vencedores, o que engana quem olha apenas para o valor total. Enquanto isso, quase 60% das ações destruíram riqueza ao longo de toda a sua existência na bolsa.

Metade de toda a riqueza gerada em 100 anos: apenas 46 empresas

Aqui está o dado mais impactante da pesquisa. De todo o valor criado na bolsa americana ao longo de um século — um total de US$ 91 trilhões —, metade foi gerada por apenas 46 empresas. Quarenta e seis, em um universo de quase 30 mil.

E a concentração está aumentando. Em estudo anterior do mesmo pesquisador, cobrindo o período até 2016, eram 89 empresas responsáveis pela metade dos US$ 43 trilhões então criados. Nos nove anos seguintes, o valor total dobrou — mas a geração de riqueza ficou ainda mais concentrada nas mãos de pouquíssimas companhias.

Para quem acompanha o noticiário econômico, não é difícil associar esses resultados a empresas como Amazon, Apple, Microsoft, Alphabet e Nvidia — gigantes de tecnologia que lideram a nova era da inteligência artificial e que, nos últimos anos, se tornaram as mais valiosas da história da humanidade, puxando o desempenho de toda a bolsa americana.

O que isso muda para o investidor comum?

A pergunta natural é: se o mercado é tão concentrado e a maioria das ações perde dinheiro, por que alguém deveria investir na bolsa?

A resposta está em como se acessa esse mercado. O investimento em ações continua sendo o principal caminho para a construção de patrimônio no longo prazo — mas exige três ingredientes essenciais: um portfólio diversificado, visão de longo prazo e paciência.

Para quem não tem tempo ou conhecimento para selecionar ações individualmente, os fundos de índice são o caminho mais recomendado. ETFs que replicam o S&P 500 americano ou o Ibovespa brasileiro, por exemplo, garantem automaticamente uma fatia de todas as empresas do índice. Quando uma delas se torna a próxima Nvidia, ela já está na carteira do investidor — sem que seja necessário identificá-la com antecedência.

E no Brasil, como ficam os investimentos de longo prazo?

A realidade brasileira tende a ser ainda mais extrema. A B3, nossa bolsa de valores, é menor, menos diversificada e historicamente dominada por poucos setores: bancos, petróleo, minério e varejo. A concentração de retornos em poucas empresas tende a ser ainda maior em mercados emergentes.

Além disso, o investidor brasileiro convive com um elemento que o americano não tem na mesma intensidade: a renda fixa competitiva. Com a taxa Selic elevada por longos períodos, aplicações conservadoras entregaram retornos reais positivos que, em muitos momentos, superaram boa parte das ações da bolsa. Porém, quando os juros começam a cair, a bolsa de valores tende a se valorizar — e quem estava de fora perde essa janela.

Por isso, a saída para o investidor brasileiro está na diversificação: uma carteira equilibrada entre ações e renda fixa permite aproveitar os dois movimentos, reduzindo riscos sem abrir mão do potencial de crescimento de longo prazo.

A lição dos 100 anos

O mercado financeiro vende histórias de sucesso. Os casos de quem multiplicou o patrimônio viralizaram, enquanto a maioria silenciosa que perdeu dinheiro apostando em narrativas sedutoras permanece invisível. Bessembinder coloca números nesse silêncio.

Cem anos de dados nos ensinam que investimentos de longo prazo na bolsa funcionam — mas a forma de acessar o mercado importa tanto quanto a decisão de entrar nele. Diversificação, disciplina e humildade para reconhecer que escolher os vencedores com antecedência é muito mais difícil do que parece: esses são os ativos mais valiosos que qualquer investidor pode ter.

Antes de escolher a próxima ação com base em uma dica de rede social, lembre-se: em um século de bolsa americana, apenas 46 empresas fizeram metade de toda a riqueza gerada. As outras quase 30 mil ensinaram, da forma mais cara possível, que confiar em narrativas é mais fácil do que confiar em dados.


Georges Kalache Netto é sócio fundador da Westwood Capital e colunista do portal Ric.
Este artigo tem caráter exclusivamente informativo, educacional e jornalístico e não representa a opinião institucional da Westwood Capital. O autor e veículos de investimento sob gestão detém posição financeira nos ativos mencionados na data de publicação. As opiniões expressas são exclusivamente pessoais e não constituem recomendação de investimento, oferta ou solicitação de compra ou venda de valores mobiliários.

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