
Investimentos de longo prazo na bolsa de valores são frequentemente apresentados como o caminho mais seguro para construir patrimônio. No mundo, Warren Buffett construiu uma das maiores fortunas da história, cerca de US$ 140 bilhões investindo em ações. No Brasil, Luiz Barsi acumulou cerca de R$ 4 bilhões pelo mesmo caminho. Mas o que acontece quando um dos pesquisadores mais respeitados do mundo em finanças decide analisar todos os dados disponíveis — cem anos inteiros — e ver se essa promessa se sustenta? O resultado contradiz o que a maioria das pessoas acredita sobre a bolsa.

O professor Hendrik Bessembinder, da Universidade Estadual do Arizona, publicou em março de 2026 um estudo que analisou 29.754 ações listadas na bolsa americana entre 1926 e 2025. Os números desmontam mitos amplamente disseminados por influenciadores e parte da indústria de investimentos.
O que os dados revelam sobre investimentos de longo prazo
O primeiro dado que chama atenção é que o retorno médio anual do portfólio com todas as ações ao longo dos 100 anos foi de 10,1%, substancialmente superior ao retorno dos títulos americanos de curto prazo, que foi de 3,3%. Em termos comparativos, um investimento de US$ 1,00 se transformou em US$ 15.041 na bolsa de valores e em apenas US$ 25,32 em títulos públicos. Parece ótimo — até você ver a outra face da moeda: a mediana de retornos foi de menos 6,9%. Isso significa que a maioria das ações, ao longo de toda a sua vida na bolsa, perdeu dinheiro, enquanto pouquíssimas empresas cresceram de forma extraordinária e influenciaram o resultado geral.
A média acaba sendo distorcida por esse grupo pequeno de vencedores, o que engana quem olha apenas para o valor total. Enquanto isso, quase 60% das ações destruíram riqueza ao longo de toda a sua existência na bolsa.
Metade de toda a riqueza gerada em 100 anos: apenas 46 empresas
Aqui está o dado mais impactante da pesquisa. De todo o valor criado na bolsa americana ao longo de um século — um total de US$ 91 trilhões —, metade foi gerada por apenas 46 empresas. Quarenta e seis, em um universo de quase 30 mil.
E a concentração está aumentando. Em estudo anterior do mesmo pesquisador, cobrindo o período até 2016, eram 89 empresas responsáveis pela metade dos US$ 43 trilhões então criados. Nos nove anos seguintes, o valor total dobrou — mas a geração de riqueza ficou ainda mais concentrada nas mãos de pouquíssimas companhias.
Para quem acompanha o noticiário econômico, não é difícil associar esses resultados a empresas como Amazon, Apple, Microsoft, Alphabet e Nvidia — gigantes de tecnologia que lideram a nova era da inteligência artificial e que, nos últimos anos, se tornaram as mais valiosas da história da humanidade, puxando o desempenho de toda a bolsa americana.
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O que isso muda para o investidor comum?
A pergunta natural é: se o mercado é tão concentrado e a maioria das ações perde dinheiro, por que alguém deveria investir na bolsa?
A resposta está em como se acessa esse mercado. O investimento em ações continua sendo o principal caminho para a construção de patrimônio no longo prazo — mas exige três ingredientes essenciais: um portfólio diversificado, visão de longo prazo e paciência.
Para quem não tem tempo ou conhecimento para selecionar ações individualmente, os fundos de índice são o caminho mais recomendado. ETFs que replicam o S&P 500 americano ou o Ibovespa brasileiro, por exemplo, garantem automaticamente uma fatia de todas as empresas do índice. Quando uma delas se torna a próxima Nvidia, ela já está na carteira do investidor — sem que seja necessário identificá-la com antecedência.
E no Brasil, como ficam os investimentos de longo prazo?
A realidade brasileira tende a ser ainda mais extrema. A B3, nossa bolsa de valores, é menor, menos diversificada e historicamente dominada por poucos setores: bancos, petróleo, minério e varejo. A concentração de retornos em poucas empresas tende a ser ainda maior em mercados emergentes.
Além disso, o investidor brasileiro convive com um elemento que o americano não tem na mesma intensidade: a renda fixa competitiva. Com a taxa Selic elevada por longos períodos, aplicações conservadoras entregaram retornos reais positivos que, em muitos momentos, superaram boa parte das ações da bolsa. Porém, quando os juros começam a cair, a bolsa de valores tende a se valorizar — e quem estava de fora perde essa janela.
Por isso, a saída para o investidor brasileiro está na diversificação: uma carteira equilibrada entre ações e renda fixa permite aproveitar os dois movimentos, reduzindo riscos sem abrir mão do potencial de crescimento de longo prazo.
A lição dos 100 anos
O mercado financeiro vende histórias de sucesso. Os casos de quem multiplicou o patrimônio viralizaram, enquanto a maioria silenciosa que perdeu dinheiro apostando em narrativas sedutoras permanece invisível. Bessembinder coloca números nesse silêncio.
Cem anos de dados nos ensinam que investimentos de longo prazo na bolsa funcionam — mas a forma de acessar o mercado importa tanto quanto a decisão de entrar nele. Diversificação, disciplina e humildade para reconhecer que escolher os vencedores com antecedência é muito mais difícil do que parece: esses são os ativos mais valiosos que qualquer investidor pode ter.
Antes de escolher a próxima ação com base em uma dica de rede social, lembre-se: em um século de bolsa americana, apenas 46 empresas fizeram metade de toda a riqueza gerada. As outras quase 30 mil ensinaram, da forma mais cara possível, que confiar em narrativas é mais fácil do que confiar em dados.
Georges Kalache Netto é sócio fundador da Westwood Capital e colunista do portal Ric.
Este artigo tem caráter exclusivamente informativo, educacional e jornalístico e não representa a opinião institucional da Westwood Capital. O autor e veículos de investimento sob gestão detém posição financeira nos ativos mencionados na data de publicação. As opiniões expressas são exclusivamente pessoais e não constituem recomendação de investimento, oferta ou solicitação de compra ou venda de valores mobiliários.
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