
Se você tentou colocar um disco para tocar ou assistir a um filme do início ao fim nos últimos dias, provavelmente sentiu aquela coceira familiar na ponta dos dedos. Uma urgência invisível, mas quase física, de pegar o celular na mesa, destravar a tela e checar se chegou alguma notificação: é sobre isso que se trata a Economia da Atenção.
Não se culpe: a sua força de vontade não ficou fraca por acaso. O seu cérebro está passando por um processo de escavação contínua e sistemática. Em uma entrevista recente do escritor e ativista Peter Schmidt no programa Roda Viva, ele utilizou uma analogia muito interessante. Ele comparou a atuação das grandes empresas de tecnologia ao fracking, aquela técnica agressiva da indústria petrolífera que injeta água e químicos a altíssima pressão para fraturar rochas profundas e extrair até a última gota de gás natural.

A lógica da chamada Economia da Atenção funciona exatamente da mesma maneira. As Big Techs não só querem o tempo em que você já está intencionalmente conectado, como tiram de você as coisas que realmente nos cobram um atenção valiosa: o cuidado com as pessoas que amamos, a apreciação de arte e com isso a contemplação da beleza da vida. O fracking da atenção extrai microsegundos de foco do seu tédio, da fila do pão, do sinal vermelho e do tempo sagrado do seu descanso (inclusive suas idas ao banheiro ficaram mais longas).
Como a Economia da Atenção Fatia Seu Tempo
A Economia sempre foi definida como a ciência que estuda a alocação de recursos escassos. E, na sociedade hiperconectada, o recurso mais escasso do planeta não é o petróleo, nem o ouro, nem o bitcoin. É a sua atenção. Existe um mito popular de que os aplicativos e redes sociais são “gratuitos”. A realidade econômica é o oposto: se você não está pagando pelo produto, o produto é a sua presença.
Para conseguir fatiar o seu foco em milissegundos e vendê-lo ao melhor comprador num leilão publicitário em tempo real, os engenheiros de software utilizam os mesmos mecanismos neurocientíficos dos caça-níqueis de cassinos. É o ciclo da recompensa variável. Você puxa a tela para baixo e não sabe o que vai encontrar. Pode ser uma notícia triste, um meme engraçado, uma validação social ou uma fofoca (e quem não ama quando aparecem vídeos de gatinhos?). Essa incerteza dispara descargas diárias de dopamina no seu cérebro, transformando o ato de checar o celular em um vício comportamental desenhado em laboratório.
O Custo Invisível: O Fim da Arte, do Amor e do Profundo
O maior problema desse modelo de negócios não é apenas a perda de produtividade. É o estrago existencial que ele provoca nas coisas que realmente dão sentido à vida. Quando a Economia da Atenção fragmenta a nossa capacidade de concentração, as primeiras vítimas são os afetos e a sensibilidade humana.
Não dá para absorver a profundidade de uma obra poética ou a harmonia de uma canção em vídeos curtos de 15 segundos. A música passa a ser tratada como mero ruído de fundo para rolar o feed. Relacionamentos reais não sobrevivem à superficialidade. Amar alguém exige escuta sem pressa, olhar nos olhos e ausência de telas sobre a mesa.
Quando paro para fazer as contas da vida, sempre volto à minha equação fundamental: descontando as horas que gastamos dormindo, trabalhando, comendo e estudando, restam apenas 21,7% de tempo livre. É essa fração escassa que nos torna humanos. É nela que mora a nossa liberdade de criar, amar e contemplar. Entregar essa fatia tão preciosa da vida para alimentar o lucro de algoritmos é uma péssima decisão de alocação de recursos.
A Necessidade de Construir um Santuário de Atenção
Durante a entrevista no Roda Viva, Peter Schmidt pronunciou uma frase que deveria servir como um alerta diário para todos nós: “Nós precisamos criar santuários de atenção”.
Um santuário de atenção nada mais é do que um espaço, físico, temporal ou simbólico, onde o mundo analógico recupera a sua soberania. Um lugar onde a urgência das notificações não consegue entrar.
Na minha vida, a arte sempre cumpriu esse papel. Quando estou no palco ou no estúdio gravando, ou quando me dedico ao projeto Dabliu canta Milton: Tudo Será Como Antes, sinto que a música é uma espécie de trincheira. Ela nos força a desacelerar, a ouvir com calma e a habitar o tempo presente.
Foi justamente pela necessidade de cultivar esses espaços de respiro que criei um grupo no WhatsApp chamado Passageiros do Submarino. Não se trata de um curso, não tem mentoria, não tem lançamento e não há produtos à venda o tempo todo. É simplesmente uma comunidade de pessoas reais que se encontram para compartilhar poesia, boa música, trocas profundas e lembrar que a vida de verdade acontece fora do alcance dos algoritmos
Resgate os Seus 21,7% de Tempo Livre
A vida é curta e rápida demais para ser gasta rolando telas infinitas em busca de estímulos vazios. A Economia nos ensina que tudo o que é escasso possui alto valor — e o seu tempo é a coisa mais escassa que você possui.
Quando você decide desligar o celular para ouvir um álbum de música do início ao fim, ler um capítulo de um livro ou simplesmente conversar sem pressa com quem você ama, você não está apenas descansando. Você está fazendo um ato de resistência contra a Economia da Atenção.
Proteja seus 21,7%. Crie os seus próprios santuários. No fim das contas, a única coisa que realmente nos pertence é a nossa capacidade de escolher onde depositamos nosso olhar.
Gostou da reflexão? Se você também sente a necessidade de construir uma rotina mais analógica, leve e poética, fica o convite para conhecer o grupo Passageiros do Submarino. O mergulho é profundo, mas a caminhada é leve.
R. J. Dabliu é economista, professor universitário, compositor e palestrante. É autor dos livros “Mill Sentidos da Vida”, “O conto da raposa vermelha” e apresentador na série de vídeos para o YouTube, “EU NÃO LI SHAKESPEARE”.
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O post Economia da atenção: você ainda consegue ouvir uma música inteira sem olhar o celular? apareceu primeiro em Ric.com.br.
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